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quinta-feira, 1 de junho de 2017

Museu expõe a beleza do corpo em membros, órgãos e cadáveres

Por Raphael Concli - Editorias: Extensão
Esqueleto em exposição no Museu de Anatomia Humana Alfonso Bovero – Foto: Marcos Santos/USP Imagens

Trajando seu avental branco com o bordado de um “anatomossauro”, o professor Edson Liberti apresentava emocionado a história por trás da ocasião que enchia o anfiteatro do Instituto de Ciências Biomédicas (ICB) da USP na tarde da última quarta-feira, 24 de maio: a reinauguração do Museu de Anatomia Humana Professor Alfonso Bovero (MAH).
Ao recuperar a história do professor que dá nome à instituição, Liberti fez questão de lembrar que foi pelas mãos do anatomista Bovero que se constituiu o grande acervo de peças que dariam origem à primeira versão do museu.

O MAH chegou a ser o segundo museu mais visitado da Universidade, com uma média de 10 mil frequentadores por ano, mas contava com uma estrutura bem simples. As muitas peças dispunham-se ao longo de diversas prateleiras, o que chegava a lembrar uma “oficina de gente”. Já era tempo de mudar.

O local ficou fechado por três anos, período em que se concebeu sua reformulação e modernização. As novas instalações já estarão disponíveis ao público a partir de 30 de maio.As áreas da anatomia definem o trajeto do museu – Foto: Marcos Santos/USP Imagens
O anatomossauro encontra designers

O personagem que orna o avental de Liberti, é como o professor ilustra a si mesmo, um espécime particular de velhos amantes da anatomia. Com ar de cientista apaixonado, o professor do Departamento de Anatomia do ICB é uma das figuras-chave da transformação do MAH.

“Eu estou numa fase mais avançada, mais velho, e produzi muita coisa nessa área. Achei que o desafio valeria a pena”, conta Liberti, que viu no projeto uma forma de estimular uma atividade que, por vezes, a carreira de docente e de pesquisador coloca de lado: a extensão.O antigo depósito do museu transformou-se nesta sala de aula – Foto: Marcos Santos/USP Imagens

Foi no encontro com estudantes do curso de Design da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU) da USP que a ideia começou a ganhar corpo. O grupo cursava em 2014 uma disciplina sobre sinalização de edifícios. Henrique Dias, integrante desse time, era estagiário no setor de comunicação visual do ICB à época e conhecia o professor Liberti. Viu no trabalho final requisitado pela disciplina uma oportunidade de repensar o museu.

Além de Dias, Leonardo Miyata, Rafael Abe, Rafael Saito e Yasmin Ghazzaoui completavam o grupo. A eles juntou-se o trabalho de outros alunos do Design: Jeferson Benevides, estagiário no ICB e Vinícius de Jesus, ex-estagiário do Instituto.

A articulação e integração dos estudantes com o professor Liberti foi sendo tecida com apoio de Maria Lúcia de Campos Motta, a Malu, chefe da Comunicação Visual do ICB. Além de unir as partes e auxiliar na distribuição de afazeres, Malu também é lembrada como suporte emocional do grupo ao longo de todo o tempo de trabalho – que foi para muito além da disciplina da FAU.Restauro de peças, trabalho gráfico e visual e confecção de mobiliário foram necessários para o novo museu – Foto: Marcos Santos/USP Imagens
Do horror ao fascínio

A união entre anatomia e design está na base da nova concepção do museu. Como lembra Liberti, algumas preocupações fundamentais guiaram o trabalho: fazer o museu deixar de parecer um galpão de autopeças, dado o acúmulo desordenado de itens; não criar um circo de horrores, considerando haver peças chocantes; identificar e acomodar de forma adequada o acervo; e, afinal, expô-lo de forma mais dinâmica e interativa.

Aí o trabalho dos designers entrou em cena. Como expor de maneira mais “viva” órgãos, ossos, fetos e membros? “O horror gera um certo fascínio”, ponderou um dos rapazes. Era preciso tornar convidativo e didático o que poderia ser apenas chocante.

Segundo o grupo, “cada peça era impactante por si só”, mas a ideia era ressaltar a importância, impacto e mesmo a beleza de cada uma, evitando que concorressem entre si. A disposição anterior produzia um efeito confuso, de informação excessiva. A nova hierarquização de informação exigiu muita pesquisa dos designers, inclusive sobre tipos de museus e seus públicos.O “time design”: Jeferson, Vinicius, Leonardo, Rafael, Rafael, Henrique e Yasmin, com Malu ao cento – Foto: Marcos Santos/USP Imagens

Pensou-se, então, que o MAH deveria ter um caminho, um fluxo que conduzisse o olhar do visitante aos poucos pelo mundo do corpo humano. Na entrada, há uma linha do tempo ilustrada contando uma breve história da anatomia. São as próprias áreas dessa disciplina que organizam o trajeto. O visitante irá transitar pelo sistema nervoso central e periférico, sistema muscular, sistema esquelético, sistema articular, sistema circulatório, sistema respiratório, sistema digestório e sistema urogenital. Tablets doados pela Receita Federal auxiliam na identificação de cada objeto exposto.

No centro do museu, há o espaço Cápsula Bovero, onde se reproduz parte do escritório do Alfonso Bovero, inclusive com seus instrumentos de trabalho e a mesa de mármore original que utilizava. Ao final, há um espaço dedicado para a exposição de técnicas especiais de conservação, fetos e anomalias.

As próprias peças receberam cuidadoso trabalho de curadoria, sendo restauradas e preparadas pelo professor Liberti e por alunos de suas disciplinas. Nem todas as peças do acervo estão no novo museu. As que ficaram de fora estão no banco didático do ICB, e poderão ser usadas em disciplinas oferecidas na unidade. Como destaca o professor Liberti, soma-se a esses trabalhos o constante apoio dos funcionários do ICB nas mais diversas funções, como limpeza e organização.
Um órgão com vida própria

“Eles estão tão bonitos, Edson. Eu nem tive medo”, comenta a professora Maria Arminda do Nascimento Arruda ao visitar o novo museu. Hoje diretora da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH), ela foi pró-reitora de Cultura e Extensão da USP de 2010 a 2016, sendo uma das apoiadoras da renovação do museu. A animação da professora, que contou ter ficado um tanto assustada em sua visita ao antigo MAH, é compartilhada pelos primeiros visitantes das novas instalações – todos calçando sapatilhas cirúrgicas descartáveis.O professor Edson Liberti do ICB – Foto: Marcos Santos/USP Imagens

O novo museu agora é um centro de apoio, ou seja, deixa de ser apenas parte do Departamento de Anatomia e passa a ser uma entidade do ICB, contando com uma secretaria e um setor de pesquisa, além de poder receber verbas e auxílios diretamente do instituto. Foi criado também um conselho gestor, do qual o professor Liberti é o curador durante o primeiro mandato. O MAH passa a ser, assim, “um órgão com vida própria”, diz o professor.

Junto ao salão de exposições, num antigo depósito, foi criado um amplo espaço que deverá servir como sala de aula para as escolas visitantes. Turmas de ensino médio são o principal público do museu. A proposta é que as escolas não venham apenas para observar, mas para desenvolver atividades neste espaço após a visita, que conta com mesas, cadeiras e diversas peças anatômicas sintéticas. O número de visitantes por vez deverá ser menor também, o que permitirá atendimento mais preciso.

Diante de toda a estrutura enfim pronta, o professor Liberti diz-se um privilegiado. Ressalta como o trabalho de integração e cooperação com a equipe de estudantes e funcionários poderá beneficiar o grande público. E em meio a essa nova obra, o anatomossauro, agora, sente que pode se considerar “parte da família Bovero”. Junto com toda a equipe, a família cresceu bastante.
Museu de Anatomia Humana Alfonso Bovero
Agendamento de visitas: por e-mail: mah@icb.usp.br
Mais informações: acesse museu.icb.usp.br

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